Mais um conto de poker do escritor e poeta (sério) Tiago Cesar sobre Johnny Ás no Velho Oeste. Confira os dois capítulos anteriores: Contos do Velho Oeste e O Torneio de Hellsdoor.
por: Tiago Cesar
Meses se passaram depois do torneio de Hellsdoor. O último jogado. Depois disso somente pequenas mesas de lucro irrisório, nada que trouxesse grande expectativa a Johnny. Um torneio era tudo o que ele queria nesse momento, algo demorado, estudado, e que pudesse dar uma boa recompensa. Mesmo nessa altura já tendo uma certa reputação, conhecido como um grande jogador por parte do Velho Oeste, não era fácil encontrar desafios que valessem a pena.
Certo dia, após permanecer por duas semanas no vilarejo de Big Beer, conhecido por sua saborosa cerveja, Johnny, tragando tabaco e com sua terceira caneca na mão, foi surpreendido por um homem alto de bigode espesso e chapéu preto com uma fina fita dourada:
- Posso me sentar?
- Já nos conhecemos antes?
Johnny tinha uma leve impressão de que aquele rosto não lhe era estranho.
O homem com um leve sorriso no rosto e já se sentando, respondeu:
- Não deve lembrar-se de mim, mas eu me lembro bem de você Johnny “Ás”. Permita que me apresente. Sou Clarck “Shark” Johnson.
Johnny ligou o nome à pessoa e lembrou-se do dia que havia o conhecido. “Shark” é um dos jogadores de poker de maior status no Oeste, e já o era bem antes daquela noite fria de outono em Blentsville. Johnny havia eliminado-o numa mesa SIT&GO de 10 jogadores, em uma das cidades pelas quais passou.
Um AJs contra QQ, num flop devastador de AA2. Johnny respondeu:
- Claro que me recordo, peço desculpas por não tê-lo reconhecido antes. O que o trás a Big Beer, o sabor da cerveja ou a esperança de uma revanche?
“Shark”, com o sorriso ainda no rosto disse:
- Bem, vir a Big Beer e desperdiçar a chance de beber umas canecas seria algo comparado a uma heresia, não pretendo cometê-la, mas o que de fato me trouxe aqui não foi vontade de uma revanche, não agora pelo menos, mas quem sabe na mesa final do torneio que promoverei em Black Horse City daqui a 30 dias.
Johnny não poderia supor notícia tão maravilhosa, muito menos de um adversário por ele eliminado. Ainda assim não pode conter sua curiosidade.
- Mas qual o motivo de vir aqui neste pequeno vilarejo somente para me convidar a participar do seu torneio?
- Não posso negar que tenho interesse em enfrentá-lo novamente. Um grande jogador só se torna um gigante quando vence diante dos melhores, e você é um dos melhores que já enfrentei.
- Eu tinha AJs, você era o favorito com QQ. Não foi uma jogada muito boa.
- Você me eliminando naquele momento se tornaria chip leader no heads up com 75% das fichas contra 25% do outro jogador. Teve suas razões para pagar meu all-in. Johnny, há jogadores que pensam em entrar na faixa de premiação, para então depois tentarem chegar o mais longe possível, e outros pensam em vencer. Você pensou em vencer contra mim, e venceu com méritos. Quero ter a chance de enfrentar os melhores e reafirmar meu nome. Você vai? $200 de inscrição e $10.000 para o campeão, o que me diz?
Era exatamente disso que Johnny precisava.
- Eu vou. Como será o torneio?
- 150 jogadores, blinds aumentam de 30 em 30 minutos, pot limit…
- OMAHA???
- Omaha sim. O que acha?
- Que esse torneio será inesquecível.
Dias se passaram…
Johnny “Ás” montou em seu cavalo Royal Flush e após 3 dias de viagem chegou em Black Horse City. Uma cidade bonita e bem estruturada. Ao passar em frente a um saloon, deparou-se com um cartaz anunciando o torneio de Omaha, que teria seu início às 21:00h. Johnny alugou um quarto e tratou de descansar.
Às 20:15h Johnny “Ás” chegou ao local. Uma casa grande com 15 mesas para 10 jogadores cada em um gigantesco salão. Pagou sua inscrição e ao sentar-se sentiu alguém tocar seu ombro. Era Clarck “Shark” Johnson.
- Torço para que possamos estar disputando o prêmio na mesa final.
- Se tudo correr bem, estaremos.
Responde Johnny, com um ar sereno, totalmente concentrado.
O torneio se inicia.
Johnny se mantém à frente de seus oponentes da mesa, calculando bem as apostas e administrando o tamanho do pote nas mãos que disputava.
Em 4 horas tinha transformado seus 1000 iniciais em 7250. Era o quarto no geral. O chip leader era exatamente “Shark”, com exatos 10.500 em fichas.
Uma hora depois, Johnny viu seu stack diminuir um pouco, com AAxx contra KQJT, num flop de KQ2, turn 7 e river A. Caiu para 6300 e por pouco não exorcizou o Ás. Já havia lhe dado mais do que tirado, não era justo ser mal agradecido, afinal de contas ainda estava em 7º na classificação, e 5 mesas já tinham fechado.
Às 3 horas da manhã Johnny tinha 8900 fichas em 8 mesas restantes com blinds 200-400 . Não era uma situação confortável, estava em 16º. O cansaço da viagem parecia ter lhe abatido, e foi de fato o que aconteceu. Não foi uma boa idéia ter chegado exatamente no dia… “Por que a cerveja daqui não é tão boa quanto a de Big Beer? Teria chegado uma semana antes!” pensava Johnny, lamentando-se .
Para sua sorte foi estabelecida a pausa até 21:00h. Johnny não perdeu tempo com conversas à mesa, tabaco ou whisky. Despediu-se numa saudação generalizada, deu boa noite a Royal Flush e recolheu-se. Era necessário dormir bem.
Johnny acordou por volta de 5 horas da tarde, estava descansado e pronto para a sequência do torneio. Alimentou-se bem e partiu para o local faltando uma hora para o recomeço.
Com 8900 em fichas deu-se início com Johnny no BB. As… Js… Kd… Ad. Ótima mão! O UTG entrou de limp, correu em fold até que o jogador na posição do DEALER entrou de bet para 1500. Havia no pote um total de 3000 (400 BB + 200 SB + 400 UTG + 1500). O SB deu fold. Era a vez de Johnny, que após alguns segundos manuseando as fichas, analisou a situação:
“O jogador na posição do DEALER tinha 2900. Estava acima da média (1875), mas era lógico que precisava dobrar e fez isso num momento bastante apropriado, somente com o SB e o BB disputando o pote e o UTG entrando de limp fora de posição.” Pensou.
Johnny sabia que sua mão era muito forte, voltou em raise de mais 2000. O UTG pensou um pouco e foldou. O DEALER tinha 1350 restantes, precisando dobrar e mais do que comprometido com o pote, deu call.
Show Down:
As Ad Js Kd
Contra
Qd Qh Th Jc
Também era uma boa mão. Melhor do que presumiu Johnny “Ás”.
O Flop:
Td Ts 2d
Johnny tinha uma possibilidade de flush contra uma trinca do seu adversário.
A Turn:
3s
A River:
8s
Johnny levou com um flush de espadas (As Js Ts 8s 3s), sem que nenhuma outra carta melhorasse a trinca de dez já formada pelo outro jogador (Th Td Ts Qh Jc). Um pote de 5350 na primeira mão aumentando seu stack para 10.800. Perfeito!
O jogo prosseguiu por pouco mais de 2 horas e Johnny tinha 19.400 fichas com 58 jogadores restando, eliminando mais dois jogadores. Encontrava-se em 4º no geral e “Shark” mantinha a frente com 28.000 fichas.
Um jogador muito talentoso chamado Dalton tinha pouco mais de 23.500 e estava em 2º no momento e uma posição na mesa depois de Johnny. Já havia lhe tomado algumas fichas com raises bem colocados, até que Johnny recebe Qh Qd Kd Kh na posição do DEALER. Um jogador no UTG+2 aumenta pondo mais 800 no pote. A mesa corre em fold até que Johnny paga e Dalton também. O BB joga fora as cartas.
O Flop:
As Qc 4s
O jogador UTG+2 entra de check, Johnny aposta 2200. Dalton paga e o outro também. O pote fica realmente grande.
A Turn:
2c
O UTG+2 entra de check, Johnny dá check, e Dalton aposta 6.000. O UTG+2 anuncia all-in. Johnny tem cerca de 13.000 para trás. Há possibilidades de flush de espadas e paus, de sequência e de um dos dois ter AAxx. Johnny demora um pouco até que decide dar call, deixando o pote ainda mais monstruoso.
A River:
2s
FULL-HOUSE!!!
O UTG+2 cerrou os olhos com a dobra do 2, dando toda a certeza de que estava eliminado. Só restava uma dúvida: Dalton tem AAxx? Ou incríveis 22xx? Não importava mais nessa altura.
Johnny aposta o resto de suas fichas. Dalton pensa antes de pagar, o que deixa Johnny eufórico. Dalton mostra Ks Kc Ac Qs e o UTG+2 resolve não mostrar e se levanta cumprimentando os jogadores. Um pote gigante que transforma Johnny em chip leader disparado. Não poderia ter sido melhor.
Pouco mais de 4 horas depois o torneio tem nova pausa, restando 12 jogadores, entre eles Clarck “Shark” e Johnny “Ás”, com 36.500 e 51.000 respectivamente.
No terceiro dia reinicia-se o torneio em duas mesas de 6 até que 4 jogadores caiam para a mesa final começar. Em pouco mais de uma hora é o que acontece.
“Shark” melhora e após eliminar 2 jogadores num all-in triplo pula novamente para a primeira posição da classificação deixando Johnny em 2º com 58.000 fichas. Alguns minutos depois Johnny elimina o jogador que estava em 8º lugar com 8000, e novamente retoma a posição de chip leader. O Jogo continua com os dois alternando posições e os outros jogadores tentando evitá-los. Certo momento um desses jogadores, conhecido por Jack Lucky consegue novamente num all-in triplo eliminar dois e colar em Johnny e Clarck.
Somente 5 jogadores restavam à mesa. Depois de uma pausa de 15 minutos o torneio recomeça e após três mãos ruins, Johnny recebe AAxx e encara um all-in sem surpresas contra KKxx e elimina o 5º. “Shark” perde força com Johnny muito bem e Jack batendo todas as cartas. Menos de uma hora depois Jack elimina o 4º e a mesa fica em três, nas seguintes posições:
1º Johnny “Ás” – 69.000
2º Jack Lucky – 48.000
3º Clarck “Shark” Johnson – 33.000
O jogo continua por mais uma hora e alguns minutos até que Clarck, na posição de DEALER e UTG aposta o pote com Kh Js Tc Qc, com o Flop de Kc Ks 9h. Johnny no SB dá fold e após alguns segundos, Jack anuncia re-raise de 30.000, obrigando “Shark” a colocar as 9000 que lhe restavam.
Jack Lucky mostra 9s 9d Ac Ad
A Turn:
Td
“Shark” soca a mesa anunciando um início de comemoração pelo Full-house de Reis e dez, mas mantém os olhos fixados na mesa esperando que o pior não aconteça. “Nada de Ás…”
A River:
Ah
Uma bad beat dolorosa que elimina Clarck “Shark” Johnson em 3º, com o prêmio de $4000. Ele cumprimenta os dois finalistas e, um pouco frustrado pede um whisky para assistir à final.
Johnny era nesse instante o 2º com 65.000 e Jack tinha 85.000. Johnny era melhor, todos eram obrigados a concordar. O problema é que a sorte de Jack Lucky não o abandonava. Todos os flops eram dele, mas Johnny não se abateu e continuou a jogar calmamente, muito concentrado, o que com o tempo foi trazendo uma certa impaciência para Jack, que virava a maioria dos flops a seu favor, mas era obrigado a devolver com juros as fichas tomadas de Johnny em raises e bets nos momentos certos.
Mais de uma hora resistindo, Johnny percebeu que Jack já não estava assim tão confiante como antes. Dava folds com maior freqüência e aumentava menos pós-flop, deixando para fazê-lo quase que somente no pré-flop. Consequentemente Johnny “Ás” começou a participar mais, a ver mais flops e criar mais ação na mesa, o que todos que estavam assistindo torciam para que acontecesse.
Johnny ainda em 2º com 72.000 contra 78.000 de Jack, recebeu 4h 3h 5c 6c e, no SB somente igualou. As blinds estavam 4000-8000. Jack demorou alguns poucos segundos e colocou mais 8000, anunciando um mini-raise. Johnny pagou.
O Flop:
Ah As 2h
Jack anunciou check. Johnny também.
A Turn:
Kh
Jack demorou uns segundos brincando com as fichas e encarando Johnny, que o encarava de volta. Colocou 10.000 no pote sem deixar de encará-lo, e Johnny, também olhando-o nos olhos, depois de mais de um minuto causando um certo burburinho ao redor da mesa, igualou.
A River:
5h
Johnny não moveu um só fio de cabelo e mantendo uma mórbida calma diante de tal carta, esperou. Jack colocou no pote 20.000. Johnny olhou suas cartas e após conferi-las encarou Jack um tempo. Voltou a olhá-las e desta vez sem encará-lo de volta anunciou all-in, fazendo alguns observadores gritarem e baterem copos, e outros ficarem em silêncio com os olhos colados na mesa.
Jack fez um sinal de negativo com a cabeça e disse:
- Te peguei.
Anunciou pagando e mostrando Ac Kc Qd Qc
- Full-house!
Disse Jack.
Johnny olhando-o nos olhos e disse:
- De fato me espanta a sua sorte, tem mesmo uma grande mão…
Arrancando um sorriso do rosto de Jack Lucky, completou:
- Só falta aprender a segurá-la para que teu adversário não a pegue!
Johnny vira o 3h e 4h na mesa, deixando as outras 2 cartas em muck, revelando assim o Straight flush. Jack olha sem querer acreditar em meio a gritaria dos outros jogadores. Praticamente eliminado com 6000 restantes contra 144.000 de Johnny, Jack Lucky muito atrás e abalado psicologicamente para tentar o milagre que seria igualar o jogo, após duas mãos, acaba por ser derrotado com Th Ts 7c 8c contra Js Jd Ad 3s num flop de ouros. Mantendo a cabeça no lugar, revela-se um cavalheiro e cumprimenta Johnny pela vitória incontestável, admitindo que jogou mal sua mão e parabenizando-o.
Durante o resto da madrugada, muita música, bebida e festa… quase de manhã, numa mesa conversavam Johnny “Ás” e Clarck “Shark” Johnson acompanhados de duas belas moças.
- Foi mesmo um grande torneio não Johnny? Alguns dos melhores jogadores do Oeste e nós dois na mesa final… é, foi mesmo muito bom, e para você melhor ainda não é?
Disse Clarck olhando para um grupo que dançava, com o braço por cima do ombro da dama que o acompanhava.
Johnny acabou de dar um trago no seu whisky, e sorrindo respondeu:
- Vou lhe contar um segredo Clarck. Meu cavalo Royal Flush disse-me, pouco antes de você aparecer que queria conhecer Black Horse City, acreditando que haviam muitos cavalos por aqui. Eu disse que não haviam tantos cavalos, mas ele me convenceu dizendo que essa seria uma grande viagem.
Clarck após uma demorada gargalhada curvando seu corpo para trás, recompôs-se e disse:
- Você quer mesmo que eu acredite que seu cavalo fala? Ora homem, ou você é louco, ou bebeu muito whisky! Santo Deus, você é mesmo cheio de histórias…
Johnny, tocando o ombro de seu novo amigo, respondeu:
- Não é necessário acreditar se ele fala ou não, o fato é que ele estava certo, foi mesmo uma grande viagem…
- É, foi sim.
- …e um grande torneio.