8
Abr

Poker e futebol

   postado por: Silvio Peters Tags: ,

por: Tiago Cesar

Olá amigos do OmahaBrasil.

Ontem foi o dia do nosso sagrado poker semanal. Uma mesa com 8 pessoas onde somente o 1º e o 2º ganhavam. Não é a situação ideal perder o heads-up tomando bad beat, mas acontece… e aconteceu! AhQc contra As8s e um 8 safado surge na river. É duro ver 75% do dinheiro sair da sua mão por causa de uma última carta… ok, it’s poker.

Esses momentos vividos por todos nós me remetem a uma comparação com o outro esporte que, com o poker, divide meu coração: O futebol. Tão imprevisível e emocionante, tal qual o poker.

Ora, quem de vocês esperava ver o Internacional de Porto Alegre vencer o todo poderoso Barcelona que tinha Ronaldinho e Messi? Ou Paolo Rossi fazer três gols na Copa de 1982 em cima da nossa Seleção? Aquele golzinho chorado nos acréscimos que muda o Campeão. Que arrebenta uma certeza absoluta! A bola é mãe e madrasta, assim como as cartas. Aquele maldito 8 foi como um gol no último minuto, que mesmo depois do esforço para entrar ITM e igualar em fichas, me tirou a “Taça de Campeão” e pôs na mão do adversário. Injustiça? Talvez, mas meu oponente também teve méritos para estar ali de frente a mim. As cartas decidiram o vencedor, e a vida continua.

Pois bem, hoje como de costume me loguei no PS e entrei em duas mesas simultâneas de NL Hold’em com 9 jogadores. Estava praticamente ITM em uma e na outra ainda tinham 5 jogadores quando pude ver a magia acontecer! O momento que parou o tempo e a beleza! Como uma disputa de pênaltis em que já se tem a vantagem de um gol. Carta após carta até a consagração! Apenas dez segundos entre o céu e o inferno, e a glória quando vem se transforma em um raro momento que faz valer à pena horas e horas de jogo.

Parafraseando uma famosa empresa de cartões de crédito, “há coisas que o dinheiro não compra”, e de fato o futebol e o poker nesse quesito são incomparáveis. A magia que esses dois esportes emanam é esplendorosa, e por isso nos apaixona cada vez mais… Cada minuto pode ser especial… Cada momento pode ser único!

20
Ago

Poker Poesia

   postado por: Silvio Peters

Poker por: Tiago Cesar

Pagar ou não?
Eis a questão!
As fichas no pote
E as cartas na mão
Eu quero ver Flop
E não mais foldar
O medo de ser Underdog
Faz até transpirar
Será que você quer
Ir comigo num Showdown?
Será que vai bater
Pelo menos Flush Draw?
Essa é nossa sina
Viver com emoção
Um Poker em cada esquina
É a nossa religião
Ciclo louco de alegria
Que corre na artéria
Nesse nosso dia-a-dia
A brincadeira é séria
Chegou a hora H!
Recebi um par de mão!
Pagar ou aumentar?
Eis nova questão!

22
Jul

A Grande Viagem

   postado por: Silvio Peters

Mais um conto de poker do escritor e poeta (sério) Tiago Cesar sobre Johnny Ás no Velho Oeste. Confira os dois capítulos anteriores: Contos do Velho Oeste e O Torneio de Hellsdoor.


por: Tiago Cesar

Meses se passaram depois do torneio de Hellsdoor. O último jogado. Depois disso somente pequenas mesas de lucro irrisório, nada que trouxesse grande expectativa a Johnny. Um torneio era tudo o que ele queria nesse momento, algo demorado, estudado, e que pudesse dar uma boa recompensa. Mesmo nessa altura já tendo uma certa reputação, conhecido como um grande jogador por parte do Velho Oeste, não era fácil encontrar desafios que valessem a pena.

Certo dia, após permanecer por duas semanas no vilarejo de Big Beer, conhecido por sua saborosa cerveja, Johnny, tragando tabaco e com sua terceira caneca na mão, foi surpreendido por um homem alto de bigode espesso e chapéu preto com uma fina fita dourada:

- Posso me sentar?

- Já nos conhecemos antes?

Johnny tinha uma leve impressão de que aquele rosto não lhe era estranho.

O homem com um leve sorriso no rosto e já se sentando, respondeu:

- Não deve lembrar-se de mim, mas eu me lembro bem de você Johnny “Ás”. Permita que me apresente. Sou Clarck “Shark” Johnson.

Johnny ligou o nome à pessoa e lembrou-se do dia que havia o conhecido. “Shark” é um dos jogadores de poker de maior status no Oeste, e já o era bem antes daquela noite fria de outono em Blentsville. Johnny havia eliminado-o numa mesa SIT&GO de 10 jogadores, em uma das cidades pelas quais passou.

Um AJs contra QQ, num flop devastador de AA2. Johnny respondeu:

- Claro que me recordo, peço desculpas por não tê-lo reconhecido antes. O que o trás a Big Beer, o sabor da cerveja ou a esperança de uma revanche?

“Shark”, com o sorriso ainda no rosto disse:

- Bem, vir a Big Beer e desperdiçar a chance de beber umas canecas seria algo comparado a uma heresia, não pretendo cometê-la, mas o que de fato me trouxe aqui não foi vontade de uma revanche, não agora pelo menos, mas quem sabe na mesa final do torneio que promoverei em Black Horse City daqui a 30 dias.

Johnny não poderia supor notícia tão maravilhosa, muito menos de um adversário por ele eliminado. Ainda assim não pode conter sua curiosidade.

 - Mas qual o motivo de vir aqui neste pequeno vilarejo somente para me convidar a participar do seu torneio?

- Não posso negar que tenho interesse em enfrentá-lo novamente. Um grande jogador só se torna um gigante quando vence diante dos melhores, e você é um dos melhores que já enfrentei.

- Eu tinha AJs, você era o favorito com QQ. Não foi uma jogada muito boa.

- Você me eliminando naquele momento se tornaria chip leader no heads up com 75% das fichas contra 25% do outro jogador. Teve suas razões para pagar meu all-in. Johnny, há jogadores que pensam em entrar na faixa de premiação, para então depois tentarem chegar o mais longe possível, e outros pensam em vencer. Você pensou em vencer contra mim, e venceu com méritos. Quero ter a chance de enfrentar os melhores e reafirmar meu nome. Você vai? $200 de inscrição e $10.000 para o campeão, o que me diz?

Era exatamente disso que Johnny precisava.

- Eu vou. Como será o torneio?

- 150 jogadores, blinds aumentam de 30 em 30 minutos, pot limit…

- OMAHA???

- Omaha sim. O que acha?

- Que esse torneio será inesquecível.

Dias se passaram…

Johnny “Ás” montou em seu cavalo Royal Flush e após 3 dias de viagem chegou em Black Horse City. Uma cidade bonita e bem estruturada. Ao passar em frente a um saloon, deparou-se com um cartaz anunciando o torneio de Omaha, que teria seu início às 21:00h. Johnny alugou um quarto e tratou de descansar.

Às 20:15h Johnny “Ás” chegou ao local. Uma casa grande com 15 mesas para 10 jogadores cada em um gigantesco salão. Pagou sua inscrição e ao sentar-se sentiu alguém tocar seu ombro. Era Clarck “Shark” Johnson.

- Torço para que possamos estar disputando o prêmio na mesa final.

- Se tudo correr bem, estaremos.

Responde Johnny, com um ar sereno, totalmente concentrado.

O torneio se inicia.

Johnny se mantém à frente de seus oponentes da mesa, calculando bem as apostas e administrando o tamanho do pote nas mãos que disputava.

Em 4 horas tinha transformado seus 1000 iniciais em 7250. Era o quarto no geral. O chip leader era exatamente “Shark”, com exatos 10.500 em fichas.

Uma hora depois, Johnny viu seu stack diminuir um pouco, com AAxx contra KQJT, num flop de KQ2, turn 7 e river A. Caiu para 6300 e por pouco não exorcizou o Ás. Já havia lhe dado mais do que tirado, não era justo ser mal agradecido, afinal de contas ainda estava em 7º na classificação, e 5 mesas já tinham fechado.

Às 3 horas da manhã Johnny tinha 8900 fichas em 8 mesas restantes com blinds 200-400 . Não era uma situação confortável, estava em 16º. O cansaço da viagem parecia ter lhe abatido, e foi de fato o que aconteceu. Não foi uma boa idéia ter chegado exatamente no dia… “Por que a cerveja daqui não é tão boa quanto a de Big Beer? Teria chegado uma semana antes!” pensava Johnny, lamentando-se .

Para sua sorte foi estabelecida a pausa até 21:00h. Johnny não perdeu tempo com conversas à mesa, tabaco ou whisky. Despediu-se numa saudação generalizada, deu boa noite a Royal Flush e recolheu-se. Era necessário dormir bem.

Johnny acordou por volta de 5 horas da tarde, estava descansado e pronto para a sequência do torneio. Alimentou-se bem e partiu para o local faltando uma hora para o recomeço.

Com 8900 em fichas deu-se início com Johnny no BB. As… Js… Kd… Ad. Ótima mão! O UTG entrou de limp, correu em fold até que o jogador na posição do DEALER entrou de bet para 1500. Havia no pote um total de 3000 (400 BB + 200 SB + 400 UTG + 1500). O SB deu fold. Era a vez de Johnny, que após alguns segundos manuseando as fichas, analisou a situação:

“O jogador na posição do DEALER tinha 2900. Estava acima da média (1875), mas era lógico que precisava dobrar e fez isso num momento bastante apropriado, somente com o SB e o BB disputando o pote e o UTG entrando de limp fora de posição.” Pensou.

Johnny sabia que sua mão era muito forte, voltou em raise de mais 2000. O UTG pensou um pouco e foldou. O DEALER tinha 1350 restantes, precisando dobrar e mais do que comprometido com o pote, deu call.

Show Down:

As Ad Js Kd

Contra

Qd Qh Th Jc

Também era uma boa mão. Melhor do que presumiu Johnny “Ás”.

O Flop:

Td Ts 2d

Johnny tinha uma possibilidade de flush contra uma trinca do seu adversário.

A Turn:

3s

A River:

8s

Johnny levou com um flush de espadas (As Js Ts 8s 3s), sem que nenhuma outra carta melhorasse a trinca de dez já formada pelo outro jogador (Th Td Ts Qh Jc). Um pote de 5350 na primeira mão aumentando seu stack para 10.800. Perfeito!

O jogo prosseguiu por pouco mais de 2 horas e Johnny tinha 19.400 fichas com 58 jogadores restando, eliminando mais dois jogadores. Encontrava-se em 4º no geral e “Shark” mantinha a frente com 28.000 fichas.

Um jogador muito talentoso chamado Dalton tinha pouco mais de 23.500 e estava em 2º no momento e uma posição na mesa depois de Johnny. Já havia lhe tomado algumas fichas com raises bem colocados, até que Johnny recebe Qh Qd Kd Kh na posição do DEALER. Um jogador no UTG+2 aumenta pondo mais 800 no pote. A mesa corre em fold até que Johnny paga e Dalton também. O BB joga fora as cartas.

O Flop:

As Qc 4s

O jogador UTG+2 entra de check, Johnny aposta 2200. Dalton paga e o outro também. O pote fica realmente grande.

A Turn:

2c

O UTG+2 entra de check, Johnny dá check, e Dalton aposta 6.000.  O UTG+2 anuncia all-in. Johnny tem cerca de 13.000 para trás. Há possibilidades de flush de espadas e paus, de sequência e de um dos dois ter AAxx. Johnny demora um pouco até que decide dar call, deixando o pote ainda mais monstruoso.

A River:

2s

FULL-HOUSE!!!

O UTG+2 cerrou os olhos com a dobra do 2, dando toda a certeza de que estava eliminado. Só restava uma dúvida: Dalton tem AAxx? Ou incríveis 22xx? Não importava mais nessa altura.

Johnny aposta o resto de suas fichas. Dalton pensa antes de pagar, o que deixa Johnny eufórico. Dalton mostra Ks Kc Ac Qs e o UTG+2 resolve não mostrar e se levanta cumprimentando os jogadores. Um pote gigante que transforma Johnny em chip leader disparado. Não poderia ter sido melhor.

Pouco mais de 4 horas depois o torneio tem nova pausa, restando 12 jogadores, entre eles Clarck “Shark” e Johnny “Ás”, com 36.500 e 51.000 respectivamente.

No terceiro dia reinicia-se o torneio em duas mesas de 6 até que 4 jogadores caiam para a mesa final começar. Em pouco mais de uma hora é o que acontece.

“Shark” melhora e após eliminar 2 jogadores num all-in triplo pula novamente para a primeira posição da classificação deixando Johnny em 2º com 58.000 fichas. Alguns minutos depois Johnny elimina o jogador que estava em 8º lugar com 8000, e novamente retoma a posição de chip leader. O Jogo continua com os dois alternando posições e os outros jogadores tentando evitá-los. Certo momento um desses jogadores, conhecido por Jack Lucky consegue novamente num all-in triplo eliminar dois e colar em Johnny e Clarck.

Somente 5 jogadores restavam à mesa. Depois de uma pausa de 15 minutos o torneio recomeça e após três mãos ruins, Johnny recebe AAxx e encara um all-in sem surpresas contra KKxx e elimina o 5º. “Shark” perde força com Johnny muito bem e Jack batendo todas as cartas. Menos de uma hora depois Jack elimina o 4º e a mesa fica em três, nas seguintes posições:

1º Johnny “Ás” – 69.000

2º Jack Lucky – 48.000

3º Clarck “Shark” Johnson – 33.000

O jogo continua por mais uma hora e alguns minutos até que Clarck, na posição de DEALER e UTG aposta o pote com Kh Js Tc Qc, com o Flop de Kc Ks 9h. Johnny no SB dá fold e após alguns segundos, Jack anuncia re-raise de 30.000, obrigando “Shark” a colocar as 9000 que lhe restavam.

Jack Lucky mostra 9s 9d Ac Ad

A Turn:

Td

“Shark” soca a mesa anunciando um início de comemoração pelo Full-house de Reis e dez, mas mantém os olhos fixados na mesa esperando que o pior não aconteça. “Nada de Ás…”

A River:

Ah

Uma bad beat dolorosa que elimina Clarck “Shark” Johnson em 3º, com o prêmio de $4000. Ele cumprimenta os dois finalistas e, um pouco frustrado pede um whisky para assistir à final.

Johnny era nesse instante o 2º com 65.000 e Jack tinha 85.000. Johnny era melhor, todos eram obrigados a concordar. O problema é que a sorte de Jack Lucky não o abandonava. Todos os flops eram dele, mas Johnny não se abateu e continuou a jogar calmamente, muito concentrado, o que com o tempo foi trazendo uma certa impaciência para Jack, que virava a maioria dos flops a seu favor, mas era obrigado a devolver com juros as fichas tomadas de Johnny em raises e bets nos momentos certos.

Mais de uma hora resistindo, Johnny percebeu que Jack já não estava assim tão confiante como antes. Dava folds com maior freqüência e aumentava menos pós-flop, deixando para fazê-lo quase que somente no pré-flop. Consequentemente Johnny “Ás” começou a participar mais, a ver mais flops e criar mais ação na mesa, o que todos que estavam assistindo torciam para que acontecesse.

Johnny ainda em 2º com 72.000 contra 78.000 de Jack, recebeu 4h 3h 5c 6c e, no SB somente igualou. As blinds estavam 4000-8000. Jack demorou alguns poucos segundos e colocou mais 8000, anunciando um mini-raise. Johnny pagou.

O Flop:

Ah As 2h

Jack anunciou check. Johnny também.

A Turn:

Kh

Jack demorou uns segundos brincando com as fichas e encarando Johnny, que o encarava de volta. Colocou 10.000 no pote sem deixar de encará-lo, e Johnny, também olhando-o nos olhos, depois de mais de um minuto causando um certo burburinho ao redor da mesa, igualou.

A River:

5h

Johnny não moveu um só fio de cabelo e mantendo uma mórbida calma diante de tal carta, esperou. Jack colocou no pote 20.000. Johnny olhou suas cartas e após conferi-las encarou Jack um tempo. Voltou a olhá-las e desta vez sem encará-lo de volta anunciou all-in, fazendo alguns observadores gritarem e baterem copos, e outros ficarem em silêncio com os olhos colados na mesa.

Jack fez um sinal de negativo com a cabeça e disse:

- Te peguei.

Anunciou pagando e mostrando Ac Kc Qd Qc

- Full-house!

Disse Jack.

Johnny olhando-o nos olhos e disse:

- De fato me espanta a sua sorte, tem mesmo uma grande mão…

Arrancando um sorriso do rosto de Jack Lucky, completou:

- Só falta aprender a segurá-la para que teu adversário não a pegue!

Johnny vira o 3h e 4h na mesa, deixando as outras 2 cartas em muck, revelando assim o Straight flush. Jack olha sem querer acreditar em meio a gritaria dos outros jogadores. Praticamente eliminado com 6000 restantes contra 144.000 de Johnny, Jack Lucky muito atrás e abalado psicologicamente para tentar o milagre que seria igualar o jogo, após duas mãos, acaba por ser derrotado com Th Ts 7c 8c contra Js Jd Ad 3s num flop de ouros. Mantendo a cabeça no lugar, revela-se um cavalheiro e cumprimenta Johnny pela vitória incontestável, admitindo que jogou mal sua mão e parabenizando-o.

Durante o resto da madrugada, muita música, bebida e festa… quase de manhã, numa mesa conversavam Johnny “Ás” e Clarck “Shark” Johnson acompanhados de duas belas moças.

- Foi mesmo um grande torneio não Johnny? Alguns dos melhores jogadores do Oeste e nós dois na mesa final… é, foi mesmo muito bom, e para você melhor ainda não é?

Disse Clarck olhando para um grupo que dançava, com o braço por cima do ombro da dama que o acompanhava.

Johnny acabou de dar um trago no seu whisky, e sorrindo respondeu:

- Vou lhe contar um segredo Clarck. Meu cavalo Royal Flush disse-me, pouco antes de você aparecer que queria conhecer Black Horse City, acreditando que haviam muitos cavalos por aqui. Eu disse que não haviam tantos cavalos, mas ele me convenceu dizendo que essa seria uma grande viagem.

Clarck após uma demorada gargalhada curvando seu corpo para trás, recompôs-se e disse:

- Você quer mesmo que eu acredite que seu cavalo fala? Ora homem, ou você é louco, ou bebeu muito whisky! Santo Deus, você é mesmo cheio de histórias…

Johnny, tocando o ombro de seu novo amigo, respondeu:

- Não é necessário acreditar se ele fala ou não, o fato é que ele estava certo, foi mesmo uma grande viagem…

- É, foi sim.

- …e um grande torneio.

19
Jun

O torneio de Hellsdoor

   postado por: Silvio Peters

por: Tiago Cesar

Uma semana de peregrinação. Blentsville não era agora uma boa estadia como nos tempos de outrora, apesar de guardar boas lembranças de sua ultima noite lá. Os tempos agora eram outros. Aproximava-se do vilarejo de Hellsdoor. Há anos ouvia rumores sobre a hostilidade desses domínios. Adentrou e notou que o que haviam lhe dito não era mentira. Um local habitado por ladrões, piratas, indivíduos da pior espécie, e forasteiros como ele. Entrou numa pequena taverna para pernoitar, sentou-se um pouco em umas das mesas da estalagem para saborear um bom whisky, e durante esse breve tempo chegou ao seu conhecimento que haveria, naquela noite, um torneio no melhor estilo Hold’em Texas. Na mesma hora lembrou-se de Blentsville e pensou: “Por que não Johny Ás?”.

Cheguando ao local, um porão escondido em um velho celeiro. Pagou $100 para participar, sendo que o vencedor ganharia $5000. Havia 7 mesas para 10 jogadores, e se classificariam os 7 primeiros e os 3 segundos colocados que mais tempo demorassem a ser eliminados. Depois de pouco mais de 2 horas, seus $100 em fichas de torneio tinham se transformado em $478, quando eliminou o terceiro colocado. O jogo continuou durante uns cinqüenta e tantos minutos, só restavam 2 mesas por terminar além da sua. Estava com $412 quando recebeu Ah e Ac. Foi All-In. Seu oponente cobriu. Ele tinha Jd e 10d. No Flop abriram Js, Ad e 2h. Johny tinha três Ases enquanto ele, dois Valetes. A Turn: 3d, e a River: 8d. Um Flush na última carta que o fez terminar em segundo lugar na mesa de classificação, mas o colocou como décimo na mesa final. Dwight Loser (Ficou sabendo seu nome pelas pessoas que assistiam o jogo ao redor da mesa), observando as partidas restantes, bateu em seu ombro e disse: “Terei prazer em te vencer novamente na final, pato!”. Johny retrucou: “O prazer será meu…”. E quando ele se virava com um sorriso irônico no rosto, completou: “… a propósito, meu nome é Johny Ás!”.

Dali a algum tempo deu-se início o jogo final. Grandes jogadores foram saindo, alguns pacificamente, outros tiveram de ser contidos. Depois de 3 horas e alguns minutos, Johny eliminou o terceiro e ficou com $580 em fichas de torneio. Mais uma vez Dwight Loser era seu oponente… seria a confirmação ou a revanche!

O jogo correu até que teve em suas mãos Ah e Ac. Dwight já tinha apostado tudo, e Johny simplesmente deu call. As mãos foram abertas e ele tinha Qd e Kd.

O Flop: 4d, Js e Ad. Dwight disse: “Isso te lembra algo Mr. Johny?”. Ficou calado.

A Turn: 10h. Dwight disse: “Straight! Venci! O que te salvará agora pato?”. Olhou para Royal Flush, seu cavalo, por uma fresta nas madeiras do celeiro. Ele tinha os olhos fixados na River. Johny respondeu: ”Me parece que o Sr. Esqueceu o meu nome Mr. Looser”

A River: As.

18
Mai

Contos do Velho Oeste

   postado por: Silvio Peters

por: Tiago Cesar

Todos conhecem alguns contos de Velho Oeste, repletos de situações em que a honra de alguém era ferida, e da mesma forma recobrada. De saloons, donzelas, desafios, e entre tantos outros detalhes, a coragem.

Essa é a história de um velho forasteiro, que passou por inúmeros lugares, conhecendo pessoas, e sendo conhecido. Seu lema é “Coragem acima de tudo”, e seu nome é Johnny “Ás” Brunson.

Johnny havia perdido o seu cavalo, roubado, e ainda não tinha ganhado seu apelido. Através da generosidade de um mercador, chegou a Blentsville sem precisar usar as próprias pernas por dias e dias. Ainda lhe restavam alguns dólares, mas não o suficiente para conseguir um novo animal de montaria. De qualquer forma, Johnny entrou em um saloon, sentou-se, pediu uma dose de whisky, e enquanto saboreava-o, preparava e acendia um cigarro de tabaco, na esperança de conseguir ao menos pernoitar na cidade. Certa hora, um homem que aparentava uns 40 anos, e parecia ter grande reputação por ali, aproximou-se de Johnny e perguntou num tom de voz agressivo:

- Quem é você forasteiro? O que veio fazer em Blentsville?

Johnny respondeu:

- Meu nome é Johnny Brunson, e estou de passagem, a fim de conseguir um cavalo para seguir viagem.

O tal homem, com um sorriso irônico, disse enquanto se afastava:

- Pensei que tivesse vindo aqui com o intuito de me desafiar. De fato não parece tão corajoso, mas ao menos mostrou sensatez.

Diante de tal menção, e em meio às risadas, Johnny tomado por um ódio súbito, virou num só gole o whisky, e bateu o copo na mesa com tamanha violência, que calou a todos, provocando certo espanto coletivo, e apontando o dedo para o homem disse:

- Agora estou aqui com o único propósito de te desafiar, no que você quiser!

Johnny já prestes a puxar a pistola sem saber bem o que esperar, notou os olhares ao redor, e pôde perceber que o seu desafio tomaria grandes proporções.

O tal homem voltou-se para Johnny e disse:

- Então forasteiro, esteja aqui dentro de três horas, e traga o seu dinheiro, mas prepare-se para perdê-lo, e sair de Blentsville a pé, e sem as calças!

- Veremos quem sairá sem as calças!

Respondeu Johnny.

Contrariado, o homem saiu do saloon como uma bala, e vagarosamente, o dono do estabelecimento se aproximou, e com os olhos tão arregalados parecendo quererem pular da cara, perguntou, meio entorpecido:

- Garoto, você tem noção do que acabou de fazer?

Johnny, em silêncio e intrigado, nada respondeu, esperando a continuação inevitável:

- Você acabou de desafiar Foster Eliot, o maior jogador de poker de Blentsville, reconhecido por todo o Oeste!

Sem querer transparecer qualquer receio, Johnny argumentou:

- Vamos ver se ele é tão bom assim.

Três horas depois, Johnny Brunson chegou ao saloon e já estavam sentados à mesa Foster Eliot, o banqueiro Folgorth, o homem mais rico de Blentsville, e, mascando tabaco, um velho cowboy chamado Arthur McFowler. A mesa estava formada com quatro jogadores no esquema Five Card Draw.

Quando Johnny sentou-se à mesa, Eliot perguntou:

- Preparado para perder?

Johnny respondeu de imediato:

- E se eu ganhar?

Foster Eliot gargalhou, curvando-se para trás, mas Johnny conteve-se e esperou alguma resposta não tão irônica.

- Garoto, isso é praticamente impossível, mas se milagres acontecerem para você nessa noite, te dou meu melhor cavalo.

Para Johnny soou como música tal resposta.

Aquela noite de outono em um saloon de Blestsville era tudo o que restava para Johnny, era jovem e sem crédito, e depois de algumas mãos, percebeu que a sorte talvez não lhe sorrisse tão brevemente. Menos sorte do que Johnny, teve o banqueiro Folgorth, que abandonou o jogo, após perder todas as suas fichas em menos de duas horas na mesa. A partida percorreu por mais uma hora, até que McFowler saiu, ambos eliminados por Eliot, de fato muito talentoso, tight e agressivo nas melhores mãos. Johnny não tinha visto melhor jogo que um full-house de valetes e oitos, mas soube levar o jogo com astúcia, atacando mais os outros dois, e evitando confrontos com Eliot. No Heads up, melhores mãos começaram a surgir para Johnny, e o jogo foi prosseguindo por mais uma hora, trazendo uma natural torcida para o seu lado, e consequentemente deixando Foster Eliot um tanto irritado e impaciente. Algumas mãos depois Eliot aumentou o pingo. Johnny olhou devagar suas cartas, e elas eram:

Qd, Kd, Td, Jd, e por fim, Js.

Subitamente dobrou a aposta dele, e ele dobrou novamente, deixando o pote monstruoso. Johnny pensou que talvez tivesse feito errado em subir o pote. Talvez fosse melhor somente dar call ao invés de raise. Ter ficado um tempo analisando esse possível erro deixou Eliot mais confiante na sua mão. Johnny não tinha o que fazer além de dar call com straight flush draw para as duas pontas da sequência. Eliot pediu duas cartas. Fatalmente tinha uma trinca na mão, com possibilidades para four ou full. Isso não era nada bom para Johnny, que se perdesse, teria muito trabalho para equilibrar de novo os stacks (pilha de fichas). Johnny pediu uma carta, trocando o Js.

Antes mesmo de Johnny ver a carta, Eliot apostou todas a fichas restantes, que correspondiam a quase todo o pote. Johnny olhou a ponta de sua quinta carta e era um A. Imediatamente pagou. Eliot, mostrou Ac, Ad e As.

- Mais o quê?

Perguntou Johnny Brunson.

- Mais nada, por quê?!

Retrucou Eliot, receoso.

- Por nada, é que você tem o meu Ás, mas nesse caso, qualquer Ás me serve, mostrando Qs, Ks, Ts, Js e o Ah.

Fim de jogo em Blentsville. Só restou a vontade de ver o royal straight flush, mas para Johnny “Ás” Brunson, isso não importou tanto, pois o jogo que ele não fez na mesa, ganhou no prêmio.

A propósito, Royal Flush era o nome do cavalo. Seu novo cavalo.

18
Mar

Ó poesia shakespokeriana!

   postado por: Silvio Peters

Meu amigo Mosca tem um blog de poesias, e ele fez um sobre uma das paixões dele, o poker:


Blefe

Quanta gente idiota querendo reconhecimento.
Gente que merece Oscar,
Gente que merece uma peruca branca cheia de caracóis.
Quanta gente preconceituosa.
Quanto papagaio de pirata.
Gente que cria e copia conceitos pelo que ouviu,
Talvez até de quem nem saiba o que fala,
Mas blefou da mesma forma.
Quanta gente fazendo pose de intelectual,
Sem entender “lhufas”.
Quanta gente lendo livros complicadíssimos
De cabeça pra baixo.
Quanta gente achando que é melhor que o outro.
Quanta gente fingindo que a realidade é diferente.
Quanto plebeu topando ser bobo-da-corte,
Sentado de perna aberta no colo da nobreza.
O mundo é uma partida de Poker.
Fingem que têm grana, e não têm,
E não têm fama,
E não têm honra,
E não têm vergonha.
Quanta gente que não tem jogo nas mãos,
Mas ganha na sugestão de forma tosca,
Transformando par em Royal…
Eu pago!
Porra, mas que blefe vagabundo!!!

9
Dez

Um conto de poker de Natal

   postado por: Silvio Peters

Doyle, a ovelha, sempre fica feliz em época de Natal. Isso porque ela vê centenas de Papais Noéis. Vê nos shoppings, em lojas nos centros comerciais, em festas a fantasia, na TV… Provavelmente existem dezenas de milhares deles espalhados pelo mundo. É de se admirar quando uma criança fala que nunca viu Papai Noel, ou que Papai Noel não existe. Eles estão em todo lugar!!! Pergunte à Doyle, o sorriso dela dirá que é verdade.

Mas o mais admirável mesmo é olhar para o céu às vésperas da meia-noite do dia 25 e não conseguir vê-los voando pra lá e pra cá! Deveria existir todo um engarrafamento aéreo. Mas não é o que ocorre. Será que eles não usam mais trenós? Será que a tecnologia dos gnomos do Pólo Norte agora lhe permitem se teletransportar direto pras chaminés alheias? Doyle não sabe dizer, e nem eu.

Uma vez perguntei à Doyle sobre isso e ela disse que se eles ainda usam trenós, uma cena corriqueira deveria ser definitivamente um engarrafamento nos céus. Além disso, ela me contou que isso acontecia em tempos que não existia ainda a fotografia e que talvez por causa das novas tecnologias (como câmeras de fotografia e filmadoras), eles não se davam mais ao luxo de serem flagrados voando por aí.

Doyle ainda me disse que uma vez estava em um rancho de um antigo dono, e ao cruzar um pequeno vale em direção ao topo de uma montanha, ouviu uma breve conversa entre Papais Noéis que passavam por ali naquele momento e estavam engarrafados.

- Ei amigo, será que não dá pra ser mais rápido com esse trenó? Ainda tenho 348 presentes pra entregar e marquei uma sessão de cash game com outros 4 Papais Noéis em Atlantic City!

- Hohoho! Desculpe, mas a minha rena da frente está com uma indigestão. Estou sem step e essa hora é muito difícil conseguir um reboque.

- Puxa. Que bad beat! Quer uma carona?

- Não posso. Isso seria collusion. Vai contra as normas morais do Pólo Norte.

- Ah. É mesmo. Great game.